Publicado por: Marcos Damigo | 18/09/2011

Luis Antonio-Gabriela

Acabei de sair de Luis Antonio-Gabriela, espetáculo de Nelson Baskerville com um grupo de jovens atores, a recém-criada Companhia Mungunzá.

O espetáculo tem o tom cortante de um acerto de contas do diretor com seu(sua) irmão(ã), que nasceu Luis Antonio e morreu Gabriela.

A dura realidade de se sentir desajustado num mundo que exige de nós definições muito claras em relação aos nossos papeis na sociedade é mostrada com tal sinceridade, inclusive no que isso tem de acerto de contas entre os dois irmãos, que o espetáculo se torna irresistível. Não há como não sucumbir aos afetos distorcidos, reforçados pela teatralidade que soluciona muito bem a cena.

Gostaria de assistir a esse espetáculo numa sessão com travestis. Gostaria de saber como eles reagiriam a esse retrato, de uma vida muito dificultada pela incapacidade da nossa sociedade de lidar com um assunto tão complexo como esse da identidade de gênero.

Imperdível.

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Publicado por: Marcos Damigo | 27/06/2011

Os Idiotas

Clássico de Dostoiévski rende duas adaptações para os palcos

Dostoiévski é fonte inesgotável de histórias para o teatro e o cinema, disso todos sabem. Seus contos e romances já renderam incontáveis adaptações, como as recentes “Sonho de um Homem Ridículo”, monólogo interpretado por Celso Frateschi, e “Um Coração Fraco”, adaptação de Domingos de Oliveira com Caio Blat no elenco. Woody Allen transpôs a novela “Crime Castigo” pro seu “Match Point” em 2005. E por aí vai.

Mas é rara a oportunidade de ver uma mesma obra em duas versões praticamente simultâneas. E é justamente isso que vai acontecer agora no Rio de Janeiro, com a vinda da mundana companhia de São Paulo para uma brevíssima temporada no Teatro Tom Jobim do Jardim Botânico, e a estreia em agosto do espetáculo dirigido por Fábio Ferreira no Parque das Ruínas, em Santa Teresa.

Outra peculiaridade, neste caso, é que as duas montagens, cada uma à sua maneira, pesquisam novas linguagens ao verter o livro para a cena.

“O Idiota – uma novela teatral”, dirigido por Cibele Forjaz e ganhador do Prêmio APCA, reúne atores de alguns importantes coletivos teatrais da cidade de São Paulo: Teatro Oficina, Teatro da Vertigem, Cia. Livre e Companhia da Mentira. A concepção partiu da premissa de que o original foi escrito em formato de folhetim, com capítulos publicados no jornal, da mesma maneira como acompanhamos hoje uma novela de televisão. O resultado disso é um espetáculo em doze capítulos, que podem ser conferidos todos no mesmo dia, numa maratona de mais de seis horas, ou em três dias consecutivos.

Já “O Idiota – primeiro dia”, dirigido por Fabio Ferreira com um conjunto de jovens atores, com estreia marcada para início de agosto, deverá percorrer os espaços do Parque das Ruínas, em Santa Teresa. O espetáculo, que se concentra na primeira parte do romance original, não chega a ser tão acrobático quanto trabalhos anteriores do diretor, garante Sergio Santoian, que interpretará o príncipe idiota do título, mas ainda assim os atores devem escalar as ruínas do parque, ou se aventurar por escadas de ferro. O projeto parte da ideia de que há uma identificação entre o universo moral da obra e a cidade do Rio de Janeiro, em seus contrastes típicos de uma aristocracia decadente.

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Publicado por: Marcos Damigo | 22/06/2011

La Omisión de la Família Coleman

Premiado espetáculo argentino em São Paulo

Quem estiver em São Paulo este fim de semana terá uma chance única pra assistir a um ótimo espetáculo do grupo argentino Timbre 4: La Omision de la Familia Coleman.

A peça mostra a crise nas relações entre os membros dessa família, em função da sua decadência econômica. Mas o diferencial nesta abordagem, de um tema que já foi tão explorado pela dramaturgia, é a maneira inusitada como se costuram as relações familiares.

Um humor nascido da identificação com o patético permeia a obra e acaba potencializando seu aspecto mais trágico. Se por um lado nos identificamos com os personagens, enquanto seres fadados à imperfeição e ao erro, por outro essa constatação não deixa de ter um aspecto libertador.

O trabalho, que já rendeu à companhia diversos prêmios, é resultado de um longo processo de pesquisa onde o texto foi sendo desenvolvido de forma colaborativa entre direção e elenco.

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Publicado por: Marcos Damigo | 16/10/2010

Depois do fim

Nossa temporada terminou há quase dez dias, e desde então um silêncio profundo se abateu sobre mim. Aos poucos as urgências da vida foram tomando esse espaço, mas em algum lugar uma digestão lenta continuava a se processar.

De tudo que passou, algumas certezas: de que tivemos um processo intenso e rico em aprendizado, e graças a isso o espetáculo teve vida. E que temos muito ainda a aprender, e por consequência muito a compartilhar. Afinal, a vida de uma peça de teatro se mede pela capacidade dos atores, e por consequência do diretor, e quem dera do resto da equipe, de descobrir novas possibilidades.

Agradecemos a cada uma das pessoas que ajudou a concretizar essa obra, e principalmente ao público que veio nos visitar.

E que venham outras visitas, em outras salas, com novos desafios e provocações para nos alimentar!

Publicado por: Marcos Damigo | 16/10/2010

Os Dragões

Dragões de estimação

Caio Fernando Abreu talvez seja um dos autores brasileiros que mais renda versões teatrais. E essa popularidade é bastante compreensível, pois sua escrita consegue combinar uma coloquialidade que cai muito bem no palco com a poesia que surge de uma observação sensível da realidade.

Junte a isso bons atores e você terá a chance de uma bela noite de teatro, daquelas que nos fazem sair com a sensação iluminada de ter roçado de leve nos mistérios da existência…

Este solo, adaptado do conto Os Dragões Não Conhecem o Paraíso, e interpretado por Fernanda Boechat com direção de Renato Farias, não escapa dessa receita.

Sozinha num apartamento, a personagem narra sua convivência com esses seres misteriosos e lúdicos. Essa brincadeira oscila delicadamente entre a vontade de participar que é despertada em nós e a fragilidade da solidão que pode motivá-la. Às vezes se torna inclusive perigosa. E é bom que seja assim, pois brincar de verdade tem seus riscos. Mas, como diz a própria narradora sem nome dessa história, “que seja doce”.

O espetáculo, que encerra temporada no próximo fim de semana no Solar de Botafogo no Rio de Janeiro, faz parte da mostra que comemora os cinco anos da Companhia de Teatro Íntimo, até o início do ano que vem com mais três trabalhos. Pra quem gosta de um teatro mais intimista, como o próprio nome da companhia sugere, vale a pena conferir.

 

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Publicado por: Marcos Damigo | 09/10/2010

O arcaico e o moderno se encontram no Oficina

O que há de mais sofisticado hoje em termos do cruzamento entre teatro e artes audiovisuais, no Brasil e talvez no mundo, é o trabalho capitaneado pelo diretor Zé Celso Martinez Corrêa à frente do Teatro Oficina.

Nos próximos dias será lançada em DVD a saga de Os Sertões, série de cinco filmes gravados a partir das peças que o diretor montou baseado na obra de Euclides da Cunha. Para se ter uma ideia da dimensão do projeto, foram 810 horas de material bruto, captados a partir de onze câmeras móveis, uma delas instalada numa grua, além de uma steady cam e uma flying cam. Oito das câmeras eram manipuladas por diretores de cinema ou diretores de fotografia. Com as câmeras inseridas na cena e a equipe participando ativamente do espetáculo, é de se esperar que o resultado seja bem interessante.

Além disso, é possível assistir ao vivo às apresentações que o grupo vem realizando pelo país (as próximas serão em Belo Horizonte no mês de outubro). E no próprio teatro, para quem tem o privilégio de presenciar ao vivo a sessão de algum de seus espetáculos, Zé Celso tem encontrado cada vez mais uma harmonia que integra a tecnologia à cena e potencializa os efeitos narrativos. Posso estar enganado, pois ninguém nunca me disse isso, mas acredito que toda essa história começou porque o Teatro Oficina tem uma acústica ruim, e a disposição da plateia nas laterais de um palco comprido não favorece muito a visualização do espetáculo. Lembro de já ter sofrido muito por não conseguir ouvir o que era dito em cena, ou de me sentir literalmente distante de algo que ocorria do outro lado do teatro.

Aos poucos, Zé Celso começou a inserir microfones e câmeras em seus espetáculos e a projetar imagens por todo o espaço. A partir daí algo muito interessante começou a acontecer: é comum em suas peças o cruzamento geral e irrestrito entre os planos da(s) ficção(ões) e o da(s) realidade(s), fazendo com que a cena se desdobre em múltiplas camadas de sentidos. Zé Celso tem a capacidade de falar ao mesmo tempo de muitas coisas, iluminando umas às outras, sem nunca perder a perspectiva de que aquele ato ocorre em tempo e espaço reais, ou seja, no “aqui e agora”.

Pois bem, acredito que, à medida em que câmeras, microfones e projetores de imagens foram sendo incorporados à cena, Zé Celso e sua trupe iniciou um processo de investigação das possibilidades de uso narrativo desses recursos que culminou com o lançamento desses DVDs, das transmissões ao vivo pela internet e de cenas belíssimas em que os atores são projetados sobre o espaço, misturados a outras imagens e às vezes até a textos escritos.

É para mim o melhor exemplo da tecnologia colocada a serviço da arte.

(Esta resenha também foi publicada no Simultâneo, blog colaborativo do TEMPO_FESTIVAL.

Publicado por: Marcos Damigo | 09/10/2010

Navalha na Carne

Navalha real

 

Navalha na Carne, um dos textos mais importantes do dramaturgo santista Plinio Marcos, conta a história de uma prostituta, a Neusa Sueli, que chega em casa depois de um dia de trabalho, e encontra seu cafetão, Vado, furioso porque não tinha dinheiro pra sair. Os dois acabam descobrindo que um vizinho da pensão, o Veludo, foi quem pegou o dinheiro pra dar pra um garoto com quem ele queria ter um caso. Esse acerto de contas entre os três provoca uma reviravolta na vida de Neusa Sueli.

O texto é um clássico da dramaturgia brasileira. Escrito há mais de trinta anos e censurado em 1967, já foi montado em incontáveis versões pelo Brasil afora. Mas uma, em cartaz no Rio de Janeiro, chamou a atenção de todos pelo fato de ter estreado no lendário Hotel Paris, na Praça Tiradentes, reduto de prostitutas. O preço do ingresso, inclusive, é o mesmo cobrado pelas meninas para um programa de cinquenta minutos, que é a duração do espetáculo. Uma segunda temporada, até 27 de novembro, parta para o Hotel Nicacio, ao lado do Centro de Arte Helio Oiticica, que funciona nos mesmos moldes do Hotel Paris.

E o que seria simplesmente uma ida ao teatro transforma-se numa vivência, onde realidade e ficção se confundem e se iluminam. Não que a peça não pudesse ser feita num teatro mesmo. Mas é no mínimo contundente constatar que aqueles personagens continuam possíveis. E a própria atriz, Marta Paret, idealizadora do projeto, tem vivido situações curiosas ao circular pelo universo das prostitutas como se fosse uma. Inclusive foi feita uma pré-estreia só para elas, que deram seu aval ao espetáculo e confirmaram ver na peça situações bem próximas às que vivem em suas vidas.

Eu, na verdade, penso que a obra vai além. Ao colocar um espelho diante dessa dura realidade, Plínio Marcos ilumina aspectos da condição humana que se comunicam com qualquer pessoa. E nos obrigam a uma revisão em nossos conceitos. Afinal, de santa e de puta todo mundo tem um pouco. Inclusive Neusa Sueli, suas colegas de profissão, eu e você.

Esta resenha foi publicada no site RG.

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Publicado por: Marcos Damigo | 29/09/2010

Carta aos atores

Meus queridos,

Essa semana não estarei com vocês. Espero que tudo corra bem!

Estamos com uma vida tão corrida, esse teatro de guerrilha que a gente faz não é mole, rs… Mas o fato é que estamos há praticamente duas semanas sem conseguir conversar com um pouco mais de calma. E nesse tempo eu venho, é claro, amadurecendo o meu olhar sobre a cena.

Claro que as conquistas são evidentes, o domínio de vocês, inclusive na administração de dificuldades, como uma cadeira quebrada, uma gastroenterite, ou até mesmo a baixa frequência semanal do espetáculo (que bom seria ter pelo menos quatro sessões semanais…) E também a correria em que estamos todos metidos, lutando diariamente contra o dragão de cem cabeças! Enfim, vocês são meus belos guerreiros!! Já completamente donos do espetáculo, a ponto de eu me sentir agora quase um mero espectador do jogo que vocês estabelecem entre si com garra e prazer.

Sinto que meu papel agora passa a ser cada vez mais o de observador silencioso dessa engrenagem misteriosa que é o ato teatral, atento só para que ela se mantenha firme, precisa e coesa. Lembram da Anne Bogart falando da função dos neurônios espelho? Para que os neurônios da plateia sejam ativados, é preciso que os atores ativem os seus também, mas não só isso. É preciso que a expressão resultante dessa ativação seja clara e precisa, pois do contrário ela desapareceria em meio a um caos de outros gestos e signos.

E, nesse sentido, sinto um perigo muito grande na repetição, pois ela pode amortecer uma sensação que deve ser sempre renovada no teatro, a cada sessão, noite após noite. A precisão vem dessa corda esticada. Não podemos nos acostumar demais com o nosso próprio trabalho, mas como fazer isso? Como manter viva uma história, como se ela estivesse acontecendo pela primeira vez, repetindo-a diariamente? Esse é o grande desafio do teatro, e seu grande mistério!

Não que vocês estejam fazendo isso, pelo contrário. Sinto que o jogo permanece vivo, e vocês atentos a novas possibilidades que possam surgir para que essa vida se renove. E a duração reside na transformação, diz o I Ching.

Mas existe um núcleo central nessa peça que não pode ser esquecido: a relação intensa desses dois personagens com o desejo e o medo. Esse desconforto interno, ainda que disfarçado, precisa ser mantido, sempre. Ele é o motor dos personagens, de onde nascem todas as nuances, cores e modulações. Como num carro, onde não vemos o motor mas sabemos que ele é o propulsor do movimento.

Acredito firmemente que é por esse viés sutil e invisível que a plateia se conecta com esse casal, pois todos nós compartilhamos desse paradoxo, em diferentes medidas. Afinal, como saber se uma relação valerá a pena se não apostarmos absolutamente todas as nossas fichas? E não é apavorante essa perspectiva de se fundir profundamente com outro ser? E não é também profundamente irresistível?

E o teatro também não é isso? Um jogo de tudo ou nada?

Que seja tudo então. Cada vez mais, tudo!!

PS.: falando de coisas práticas, cuidado com uma certa tendência de preencher os silêncios, eles são fundamentais pra essa história. Permitam-se abrir esses abismos para depois contemplá-los com assombro!!

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