Publicado por: Marcos Damigo | 01/02/2012

Atores produtores

Fui a três espetáculos no Rio de Janeiro, completamente diferentes entre si, mas com uma coisa em comum: eram projetos capitaneados por atores. Isso me fez refletir sobre uma situação que é bastante comum hoje em dia (eu mesmo acabei de viver essa experiência em Deus é um DJ).

De um modo geral, sinto que quando um ator se dispõe a encarar essa tarefa hercúlea de produzir e atuar ao mesmo tempo, ele assume suas convicções artísticas com mais clareza (a não ser que o faça só para exercício de sua própria vaidade, o que felizmente não foi nenhum dos casos). E com certeza a cena ganha vida, na medida em que essa busca reflete as inquietações artísticas de quem as empreende.

Primeiro vi Os Altruístas, projeto pessoal de Mariana Ximenes que está em cartaz no Teatro Tom Jobim. O texto de humor corrosivo e politicamente incorreto de Nick Silver dá chance a ela, uma atriz com a carreira consolidada na televisão, de rir de si mesma, pois na peça ela interpreta uma famosa e descompensada atriz de novelas apaixonada por um revolucionário que a explora (interpretado por Miguel Thiré), e com um irmão gay (Kiko Mascarenhas) que se apaixona por um michê (Jonathan Haagensen). Embora ela mesma assuma que a similaridade da personagem com sua própria vida não tenha sido o aspecto mais relevante na escolha do texto, estabelece-se um interessante jogo entre ficção e realidade neste caso. Essa provocação que ela lança a si mesma, a começar por um texto um tanto indigesto, deu origem a um espetáculo de uma teatralidade arriscada, ótimas interpretações e plasticamente bastante interessante. Em sua primeira incursão numa direção solo, foi o ator Guilherme Weber quem apresentou o texto de Nick Silver à atriz, que estava querendo voltar ao teatro depois de nove anos fora dos palcos.

Depois fui ver As Mimosas da Praça Tiradentes, projeto de Gustavo Gasparani, que assina o texto com Eduardo Rieche e a direção com Sergio Modena. Gustavo, que tem já em seu currículo algumas experiências bem sucedidas na pesquisa de um teatro musical genuinamente carioca, realiza desta vez sua produção mais ambiciosa, em cartaz no Teatro Carlos Gomes, com banda ao vivo, bailarinos e muito brilho. A peça mistura um pouco da história da Praça Tiradentes, numa tentativa de resgatar sua importância e dignidade, com uma homenagem ao universo das drag queens, travestis e afins, em sua alegria e irreverência. É nítida a maturidade de Gustavo, tanto em cena quanto ao compor o espetáculo com precisão e humor, amparado por um ótimo elenco de homens travestidos.

Por fim, fui ao último dia de apresentação de Mão na Luva, projeto da atriz Marta Paret. Depois do sucesso de Navalha na Carne de Plinio Marcos, encenado num hotel decadente na Praça Tiradentes, Marta resolveu seguir investindo em locais que se aproximam do universo da obra, misturando assim a ficção com a realidade do seu entorno. Mão na Luva, que conta a história de uma artista plástica em crise conjugal com o marido jornalista (Isaac Bernat), foi encenada no atelier do Daniel Senise. No final da sessão que assisti, Marta fez questão de ressaltar que montou o espetáculo com apenas R$ 50 mil provenientes da Secretaria Municipal de Cultura do Rio, e que naquela segunda temporada a equipe toda estava trabalhando praticamente de graça, já que a bilheteria do espetáculo é irrisória. Mas a falta de recursos não compromete o resultado, pois nesse caso a encenação se aproveita da autenticidade provocada pelo espaço não teatral, e o público se sente um pouco voyeur do drama.

Poderia citar muitos outros exemplos, só para ficar nos que estão atualmente em cartaz: depois de oito anos fazendo Surto (e ainda fazem até hoje), Wendell Bendelack e Rodrigo Fagundes investiram dinheiro do próprio bolso para colocar no palco O Incrível Segredo da Mulher Macaco, em cartaz no Teatro Cândido Mendes. Se aprofundam no estilo que os consagrou, mas agora evoluindo para uma dramaturgia que amarra todos os personagens, e a vontade evidente de brincar com o gênero de suspense cinematográfico à la Hitchcock. Cozinha e Dependências e Um Dia Como os Outros, dois textos de Agnès Jaoui encenados por Bianca Byington, que também assina a direção com Leonardo Netto, em cartaz no Teatro dos Quatro. Talvez, em cartaz no auditório do SESC Pinheiros em São Paulo, foi escrito e é interpretado por Álamo Facó, que convidou Cesar Augusto, outro ator, para dirigir.

Talvez esse seja realmente um caminho possível para o teatro. Diante da dificuldade em se levantar uma produção teatral, o apelo que um ator sente quando se identifica com uma história é combustível essencial pra persistir nesta árdua jornada. Mas o caminho é arriscado e pedregoso. Já vi atores serem tragados por questões de produção, deixando o principal, que é o personagem, em segundo plano. Pela minha experiência em Deus é um DJ, sinto que se catalizam processos muito intensos, que nos obrigam a amadurecer como artistas e pessoas, dosando a paixão e a razão para que elas não estejam no lugar e na hora errados, e inclusive a sacrificar tudo o que for necessário para que o projeto se realize da melhor maneira. Mas ao mesmo tempo, o peso da responsabilidade se dilui diante do entusiasmo e de uma convicção tão poderosos.

E, acima de tudo, tenho certeza que todos esses artistas, se questionados, mencionariam a alegria de trazer para dentro do seu sonho diretores, autores, parceiros de cena, iluminadores, cenógrafos e, por fim, o público, para compartilhar do milagre que se realiza em cena todas as noites em que um espetáculo acontece.

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Responses

  1. Muito legal sua análise sobre o teatro produzido por atores, a linguagem sem hermetismos é cativante.

    A mesma implicação e carinho que vc dedica a seu trabalho neste caso é generosamente reconhecida no trabalho de seus parceiros… Com certeza ganhamos todos com este tipo de militância profissional… nós, platéia, a arte e todos os profissionais do teatro.

    Massa!

  2. Muito boa análise! Fiquei com vontade de assistir a todos os espetáculos. Com certeza, para o ator assumir essas duas funções deve ser mesmo um grande desafio, que no final se transforma em um prazer enorme.

  3. É… as exposições sobre as peças estão boas mesmo… E Com a bagagem de conhecimento que você parece ter sobre o assunto, acrescenta muito, tanto na formação do olhar de novos leitores das artes cênicas, quanto na tentativa de compreensão dos dispersos como eu, mo momento. Bom.


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