Publicado por: Marcos Damigo | 24/11/2011

Arte e vida

Hoje estou especialmente sensível. Uma pessoa muito próxima está passando por um momento bem difícil. Todos nós temos nossos momentos difíceis. Mas esse está sendo realmente difícil. Sim, e daí?

É que essa pessoa assistiu Deus é um DJ semana passada. E foi embora dizendo que não sabia se o espetáculo havia feito bem a ela. E depois disso uma sucessão de coisas se desencadearam, culminando nesse momento difícil. Que talvez fosse mesmo inevitável. Mas só a sensação de que o fato dela ter assistido ao espetáculo tenha contribuído minimamente pra que as coisas se sucedessem dessa forma e não de outra já foi o suficiente.

Uma atriz, certa vez, interpretava uma personagem que enlouquecia durante a história. Enquanto estávamos ensaiando, sua mãe teve que ser internada. Ela entrou nessa espécie de crise. Achou teatro a coisa mais sem sentido, frágil, boba mesmo. Pra quê imitar uma louquinha, quando a loucura é uma coisa grave, séria, se pessoas sofrem de verdade por causa dela? E essa atriz nunca mais pisou num palco.

Que enorme paradoxo é esse o da arte! Poder nenhum e todo o poder do mundo ao mesmo tempo. Por um lado não passamos de pessoas fingindo ser outras, na frente de um monte de gente que sabe que aquilo tudo é mentira. Por outro, somos espelhos, lentes de aumento, metáforas.

Se o que se passa no palco não refletir de alguma maneira o que se passa com você, sua vida, suas questões e conflitos, provavelmente você achará tudo aquilo uma enorme bobagem. Independente de ser um drama ou uma comédia, ou todas as gradações possíveis entre um e outro.

Caso contrário, você será fisgado. E esse verbo talvez seja perfeito pra definir o que ocorre: fisgar. Como um peixe preso no anzol, você mordeu a isca e agora é arrastado à sua revelia, por esse mundo de metáforas que é o palco.

As consequências desse “fisgamento” geralmente são mínimas: você sai com a sensação de que gostou, de que aquilo te fez refletir sobre determinados aspectos da vida, ou sai sentindo que alguma coisa mudou dentro de você, você está mais leve, mais eufórico, mais grave, dependendo de como aquilo que viu se misturou com o seu próprio material humano. Ou sai reclamando, pois ser fisgado pode não ser nada prazeroso!

Uma ou outra vez, e eu agradeço profundamente ter passado por isso algumas vezes (a última delas foi recentemente, assistindo “Náufragos do Louca Esperança”, do Théâtre du Soleil), você sente que aquilo mexeu profundamente com você, mobilizou questões fundamentais, alterou o rumo da sua vida naquele momento!

Mas talvez, se você estiver num dia ruim, predisposto a uma ida ao fundo do poço, e assistir exatamente aquilo que esfregaria na sua cara coisas que talvez você até precisasse ver, mas não naquele momento, não daquela maneira, não com aquele viés… Pronto!

Mas como saber o dia certo pra cada coisa? Como prever o que vamos encontrar ali na próxima esquina?

Daqui a menos de três horas estarei no palco, fazendo a mesma coisa que tenho feito todas as noites de quinta a domingo, com enorme prazer. Mas hoje há uma diferença. Hoje uma dúvida profunda e cruel se apossou de mim.

E quer saber: quem sabe o espetáculo até melhora? Afinal, a vida é combustível pra arte! E certa crueldade é necessária, na arte e na vida.

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Responses

  1. Bem, consigo até entender o tipo de questionamento que te ocorre, mas não consigo aceitar que esqueça do valor que arte tem. Por mais que não abarque o tamanho e a significância dos fatos das vidas “reais”, do que nos acontece diretamente, arte mostra, como você disse, a realidade, é baseada nela, ou melhor, nelas, porque dá pra falar em realidades, né? Então, não tem como uma só pessoa viver todas elas, a realidade de um é a dele. Arte, entre outras coisas, põe a gente em contato com outras realidades, e isso é enriquecedor, até quando a gente se compara com os outros e não se sente assim tão bem, inferiorizado, pode ser só um passo, talvez uma mudança depois e um resultado melhor no final, que é o que conta.
    Se cabe compartilhar isso, me lembro de ter visto muita crítica do filme Blue Valentine (Namorados para Sempre) como extremamente forte e chocante, e daí assisti e não teve o mesmo efeito em mim, justamente porque na época eu tava envolvido no mesmo tipo de questionamento e até de dor retratados, mas pros quais aquela “ficção” era quase insignificante mesmo. Bem, eu nem teria como ajudar, nem contribuir, e de novo aborreço, encho o saco comentando. Mas dá pra reconhecer um sofrimento nas suas palavras, e não consigo não simpatizar…

  2. Eu também às vezes me pego pensando nisso. A responsabilidade do artista, de todo aquele que omite opiniões. Eu sei que a arte tem o poder de salvar vidas, de emocionar, de tocar gente de todo tipo. Mas será que a arte também tem o poder de machucar, de ferir, de alguma forma, o sentimento das pessoas?

    As palavras tem um peso incrível, e quem lida com elas tem uma responsabilidade inegável. Cabe a nós usá-las da melhor maneira possível, com o nosso coração, porque o que vem do coração não pode ser ruim, porque é amor. A arte é amor. Já pensou se todo mundo resolvesse não se comprometer? Não se comprometer com a vida, com as pessoas, com a arte… O mundo não giraria.

    Eu acho que ficar em cima do muro vendo a vida passar é pior do que subir e enfrentar o palco. Afinal, estamos aqui pra isso, pra nos manifestarmos, pra vivermos. Já pensou como seria a vida sem os artistas? Que se comprometem, que vivem intensamente e reproduzem suas experiências e anseios e desejos e felicidades em suas obras.

  3. Eu acho que é isso mesmo, que é uma baita responsabilidade. Mas não tão diferente da do jornalista que relata fatos reais ou até da de um psicólogo que tenta orientar alguém (mesmo influenciando uma pessoa de cada vez).

    Se a peça fisga e traz à tona algo ruim – ou bom -, é porque esse algo sempre esteve ali. A esquizofrenia, por exemplo, precisa de duas coisas para existir: uma predisposição genética e um fator que a desencadeie. Pode ser uma situação familiar difícil, uso de drogas, podem ser mil coisas… mas pra se concretizar a genética precisa existir. Sozinho, o teatro pode só machucar o ator, caso ele despenque do palco – e se o palco for bem alto.

    Quando a sua atuação é capaz de provocar reações, sejam risos, choros, uma mudança no rumo de uma vida… quando ela faz isso ela passa a existir de verdade e não mais só em você ou no teatro… ela vive uma vida própria. E não adianta pensar no que fazer com ela, pois ela já não é mais sua. É do mundo.

    Te AMO.

  4. Marcos,
    Assisti a peça na semana passada e posso dizer que meu sentimento ao sair do espetáculo foi de leveza e reflexões a respeito de coisas igualmente leves. Algumas passagens tem um quê de loucura muito grande e outras soam tão sinceras (bem no estilo “caramba, é assim mesmo que acontece”) que até assustam.
    Inevitavelmente provocar tais sentimentos e outros mais faz parte do que vocês fazem. Penso sempre que isso deve exigir um preparo imenso e que separar arte e vida é simplesmente impossível. Uma coisa é certeira nessa equação: depois que vai, que sai a coisa toma uma dimensão incontrolável no outro.
    Provocar um sorriso ou um choro descompensado depende de tanta coisa não controlável, não dimensível ou tangível que fica até complicado falar, não é.
    Assim como cada dia é diferente no espetáculo da vida (vivida de verdade ou encenada em um palco) resta para nós observar atentamente o outro e nós mesmos e fazer a oda do mundo girar.

    Adorei o blog e descobri logo depois que assisti a peça procurando um pouco mais a respeito de ti e da Maria Ribeiro.
    Achei sensacional essa sensação de proximidade que seu blog trás. Coisa rara isso hoje em um artista (estar afim de se mostrar sinceramente além daquilo que ele faz na tela ou no palco). Muito obrigada por compartilhar conosco seus textos (ótimos) e pensamentos.

    Um abraço e boa semana!

  5. É a arte que imita a vida ou a vida que imita a arte?
    Bem é a questão que divide críticos a anos ,será que a intenção de Téspis ao representar Baco era a de Homenagear o deus? aqui representando a arte e tendo Téspis apenas como um simples mortal (vida).Ou a de satirizar as pessoas que adoravam ao deus e assim arte imitando a vida, ou seja Téspis o artista (arte) e o povo como vida (ou no processo de vida ao ter seu sonhos ou desejos projetados em um ser não palpável e desta forma vivendo) Mais independente do que Téspis tenha pensado e aqui fica claro que a questão gira em torno do que ele pensou e seguido esta linha de raciocínio mostra que não só ele mais o publico .Fica claro que tudo é realmente teatro em que há o dialogo entre o ator (você )e o publico .
    E o dia certo pra cada coisa raramente ocorre com o teatro e quando acontece acaba por ser previsível e esta não é missão do mesmo teatro é magia encantamento é você como pessoa sair do ser e passar para o não ser ou o oposto mais o primordial é ser obrigado a pensar se repensar sobre o humano sua condição humana .É como você citou o caso da atriz que interpretava uma personagem que enlouquecia o que mudou não foi a loucura mais a forma com ela passo a vela até porque ela não interpretava a loucura mais uma louquinha é como se ela não tivesse tido real dimensão do problema até passar por ele, era a arte imitando a vida e quando ela viu que o teatro é esta faca de dois gumes percebeu que metáforas são como metamorfoses quando se trata de teatro verdadeiro .O teatro é mais como a coisa certa que fica encubada, aguardando o momento (dia) certo para a metamorfose ,então esta pessoa próxima a você acabará por perceber que o importante não é em que ela se transformou nem o quanto foi difícil passar pelo processo de mudança mais que ela resistiu a ele como guerreira porque mudar também é resistência e entrega e o beneficio e maléfico do teatro é este de cutucar a ferida para curar ou ferir mais só depende de como ela encara a mensagem recebida e se ela não sabe se o espetáculo fez bem a ela é por o que foi recebido ainda não foi digerido .Isso prova que o teatro cumpriu sua missão com louvor . Parabéns !


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