Publicado por: Marcos Damigo | 20/11/2011

Como criar relevância?

Num mundo de virtualidades cada vez maiores, onde o bit digital cria a ilusão de uma realidade muitas vezes mais atraente, o teatro permanece como um espaço de resistência para que os encontros reais continuem existindo. Sem negar a importância dos avanços tecnológicos. Sabendo inclusive o quanto tudo isso possibilita um fluxo inacreditável de compartilhamento de saberes e experiências. E quanto o teatro mesmo amplia suas possibilidades de jogo a partir da incorporação de novas tecnologias. Mas sem o lastro de uma experiência calcada na sabedoria e no afeto, corremos o risco de ficarmos à deriva no mar de informações indiferenciadas que transbordam de computadores, celulares e tevês.

E mais: como criar relevância em meio a esse excesso de informação que vivemos hoje? Como capturar a atenção de um espectador e compartilhar com ele uma experiência realmente significativa e mobilizadora?

Deus é um DJ, espetáculo que estou fazendo atualmente,como idealizador e ator, fala um pouco disso: ele pede pra que cada espectador se posicione em relação ao que é mostrado. Transgredindo bons modos e flertando com a necessidade de serem bem sucedidos, os personagens colocam em xeque várias fronteiras comumente estabelecidas entre certos conceitos: público, privado, arte, mercadoria, real, ficcional… E propõe uma vivência absolutamente calcada no aqui e no agora, mas que se desdobra em virtuais possibilidades de interpretação e cruzamento com o mundo à nossa volta. Aí reside seu fascínio, se é que ele existe realmente.

foto Alexandre Nino (detalhe do cenário)

Esse espetáculo está sendo uma experiência completamente diferente pra mim como ator. Minha formação, de Escola de Arte Dramática em São Paulo, foi toda baseada em disciplina, aprofundamento e rigor. E não que isso não seja importante, ou que esses elementos não estejam presentes nesse trabalho. Pelo contrário. Prova disso é que toda a operação de uma parafernália de câmeras, mixers e samplers de vídeo, som e luz são feitas por nós mesmos em cena. Mas ficou muito claro pra mim que chega um momento do processo em que tudo isso precisa ser jogado fora, para que o vôo seja alçado.

Deus é um DJ é um trabalho que não resiste ao menor engessamento. O público precisa ter a clara sensação de que tudo aquilo que se passa à sua frente está acontecendo de fato. Parece simples, mas não é. Uma palavra às vezes um pouco mais “literária” pode estragar toda a verossimilhança de uma cena. E essa necessidade de parecer real faz surgir outro dado muito interessante: todos os pequenos “acidentes” a que estão sujeitas as obras que se fazem ao vivo, e que normalmente atrapalham a apresentação, no nosso caso ajudam a quebrar esse risco de a coisa ficar teatral demais. Um celular que toca, um barulhinho irritante de papel de bala, um vídeo que não entra, comemorações de gol do lado de fora do teatro, uma pessoa que sai no meio da sessão, são todos exemplos destes pequenos acidentes que nos obrigam a manter os pés e a mente fincados no aqui e agora. E o público nunca sabe de fato o que foi ensaiado e o que está acontecendo apenas naquele momento.

Tenho a sensação que isso tudo faz com que o trabalho fique mais vivo pra quem assiste. Mas será que, retornando à pergunta que originou todo esse papo, estamos conseguindo dar às pessoas alguma coisa especial? Não sei. O que eu posso garantir, para além de qualquer julgamento que se possa fazer sobre uma obra, é que essa é uma batalha que precisa ser conquistada dia-a-dia. Com muito prazer. E o coração aberto.

(variação de um texto publicado em www.deusdj.com)

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Responses

  1. Muito bom texto! Ja compartilhei com meus alunos. Queria poder ver o espetáculo, mas só devo ir ao Rio no ano que vem. Grande abraço para ti. RG

  2. Valeu, Rodrigo! Espero que consiga ver em outra ocasião!

    Abraço!

  3. Mas você não acha que dá pra dividir a arte em pelo menos duas? Uma que tenta abrir os olhos pra realidade e outra que ajuda a fugir dela? Pra mim é assim, e geralmente a que tenta abrir os olhos faz isso chocando a audiência, enquanto a outra distrai… Em Deus é um DJ, como geralmente acho que é, tem um pouco desses dois lados: tanto choca com o humor negro e com a confusão verossimilhança/loucura dos personagens, quanto quando o mesmo humor alivia e tem uma certa doçura no amor dos dois. Também acho que o caso da senhora que saiu no meio não aguentou o choque, tipo quando a gente acompanha quando o seu personagem cai na realidade e fala da fugacidade das coisas e tal (e a gente pensa: “puta!, I couldn’t agree more…), também acho importante, porque pelo menos me identifiquei, com quando se fala dos problemas com os pais que, me parece, todo mundo tem, sem poder escapar… E isso também é forte na experiência (que vai além de uma peça tradicional, um verdadeiro projeto)… Acrescento também que o trabalho de vocês em criar uma realidade de palco muito “acreditável” funciona, e às vezes a gente se sente (roubando o comentário do meu amigo) espionando a DR alheia, bem como na comparação com os reality shows… Afinal, é a essa comparação que a frase escrita no cenário no fim alude ou é uma coisa mais ampla? De qualquer jeito, eu consegui ir num desses dias em q teve comemoração de gol do lado de fora, e achei que por um segundo você ponderou se devia comentar ou não… E no final, não sei se é porque me apego fácil, ficou até uma dorzinha de “quero mais”. Bem, falei demais. =X

  4. “produzir contradições e continuar entretendo”, como diz a personagem da peça!
    Muito bons seus comentários, valeu!!

  5. Refletindo um pouco sobre as suas duas perguntas iniciais, acho que uma reposta plausível para a segunda responderia em parte à primeira. Sinto que um espectador de qualquer arte vivencia uma experiência impactante se ele se identifica com algum elemento emocional particular e significativo. Este elemento tanto pode ser uma palavra, um som, uma música, uma imagem, um gesto, uma mensagem ou qualquer outro agente “relevante” para o seu despertar de um mundo onírico ou de um estado de refúgio de realidades avassaladoras, para um mundo presente onde os medos, aflições e sentimentos são desnudados, confrontados e possivelmente transformados.
    Existe uma frase famosa da Maya Angelou que diz algo como “esquecemos facilmente o que foi dito ou feito para nós mas sempre nos lembramos como uma pessoa nos fez sentir.” Da mesma maneira, acho que em teatro ou qualquer outra forma de arte, capturar a atenção do espectador tem a ver com o evocar das emoções e sentimentos. O compartilhar imediato desta experiência individual talvez não seja possível por não ser tão instantânea e poder levar tempo para desabrochar. A relevância se concretiza no processo de criação de uma percepção nova onde a experiência vivenciada se torna uma força propulsora de ver o mundo com um olhar mais sábio.

    Quando o trabalho do artista reflete o questionamento como o que existe no seu projeto desta peça, tenha a certeza Marcos, de que vocês serão sempre instrumentos evocadores de percepções alinhadas
    às suas intenções. Então vocês estão certamente conseguindo oferecer algo especial a cada espectador, algo como uma semente com potential transformador mobilizador e significativo, embora a sua germinação dependa do solo em que foi plantado.

    A conquista diária da sabedoria e o afeto que se transborda de um coração aberto são para mim o poder e o amor, a dupla que considero imprescindíveis em qualquer transformação pessoal, social ou tecnológica. A sabedoria/afeto ou poder/amor são peneiras através das quais a essência é filtrada. São os ingredientes necessários para vivermos/sobrevivermos neste mundo de excessos.

    Uma pena não poder assistir “Deus e’ um DJ”. Contudo, as leituras e os comentários alimentam a minha imaginação. Parabéns pela obra prima. Já está quase to topo do ranking. Continuem a brilhar. Abraços.


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