Hoje estou especialmente sensível. Uma pessoa muito próxima está passando por um momento bem difícil. Todos nós temos nossos momentos difíceis. Mas esse está sendo realmente difícil. Sim, e daí?
É que essa pessoa assistiu Deus é um DJ semana passada. E foi embora dizendo que não sabia se o espetáculo havia feito bem a ela. E depois disso uma sucessão de coisas se desencadearam, culminando nesse momento difícil. Que talvez fosse mesmo inevitável. Mas só a sensação de que o fato dela ter assistido ao espetáculo tenha contribuído minimamente pra que as coisas se sucedessem dessa forma e não de outra já foi o suficiente.
Uma atriz, certa vez, interpretava uma personagem que enlouquecia durante a história. Enquanto estávamos ensaiando, sua mãe teve que ser internada. Ela entrou nessa espécie de crise. Achou teatro a coisa mais sem sentido, frágil, boba mesmo. Pra quê imitar uma louquinha, quando a loucura é uma coisa grave, séria, se pessoas sofrem de verdade por causa dela? E essa atriz nunca mais pisou num palco.
Que enorme paradoxo é esse o da arte! Poder nenhum e todo o poder do mundo ao mesmo tempo. Por um lado não passamos de pessoas fingindo ser outras, na frente de um monte de gente que sabe que aquilo tudo é mentira. Por outro, somos espelhos, lentes de aumento, metáforas.
Se o que se passa no palco não refletir de alguma maneira o que se passa com você, sua vida, suas questões e conflitos, provavelmente você achará tudo aquilo uma enorme bobagem. Independente de ser um drama ou uma comédia, ou todas as gradações possíveis entre um e outro.
Caso contrário, você será fisgado. E esse verbo talvez seja perfeito pra definir o que ocorre: fisgar. Como um peixe preso no anzol, você mordeu a isca e agora é arrastado à sua revelia, por esse mundo de metáforas que é o palco.
As consequências desse “fisgamento” geralmente são mínimas: você sai com a sensação de que gostou, de que aquilo te fez refletir sobre determinados aspectos da vida, ou sai sentindo que alguma coisa mudou dentro de você, você está mais leve, mais eufórico, mais grave, dependendo de como aquilo que viu se misturou com o seu próprio material humano. Ou sai reclamando, pois ser fisgado pode não ser nada prazeroso!
Uma ou outra vez, e eu agradeço profundamente ter passado por isso algumas vezes (a última delas foi recentemente, assistindo “Náufragos do Louca Esperança”, do Théâtre du Soleil), você sente que aquilo mexeu profundamente com você, mobilizou questões fundamentais, alterou o rumo da sua vida naquele momento!
Mas talvez, se você estiver num dia ruim, predisposto a uma ida ao fundo do poço, e assistir exatamente aquilo que esfregaria na sua cara coisas que talvez você até precisasse ver, mas não naquele momento, não daquela maneira, não com aquele viés… Pronto!
Mas como saber o dia certo pra cada coisa? Como prever o que vamos encontrar ali na próxima esquina?
Daqui a menos de três horas estarei no palco, fazendo a mesma coisa que tenho feito todas as noites de quinta a domingo, com enorme prazer. Mas hoje há uma diferença. Hoje uma dúvida profunda e cruel se apossou de mim.
E quer saber: quem sabe o espetáculo até melhora? Afinal, a vida é combustível pra arte! E certa crueldade é necessária, na arte e na vida.





