Publicado por: marcosnauta | 25/10/2009

O novo diretor

Novos atores pedem uma nova direção

Tenho conversado bastante com amigos sobre a figura e a função do diretor. Sinto que está ocorrendo uma mudança muito grande na maneira como o diretor é encarado. Viemos de um passado recente onde o diretor era colocado hierarquicamente acima dos atores, mas os atores hoje em dia estão emancipados e pedem uma relação mais horizontal com essa criatura.

Historicamente, o reinado dos grandes diretores, gênios criativos e muitas vezes autoritários, já acabou. O fato de o Gerald Thomas declarar em seu blog que não quer mais fazer teatro, de certa forma, é um sintoma dessa mudança. E o teatro, por ser uma arte tão artesanal, reflete com muita sensibilidade as mudanças comportamentais. Não à toa boa parte da produção teatral no Brasil hoje é feita a partir de coletivos de criação, onde muitas vezes a posição de diretor é ocupada por diferentes membros.

Estou atuando num espetáculo chamado “Geração Trianon”, que conta a história de uma companhia teatral dos anos 20. Nessa peça, coincidentemente, faço o papel do Ensaiador, uma espécie de ancestral do Diretor. Ele quase não tinha prestígio nenhum, era praticamente um técnico do teatro. É interessante notar como, ao longo desses quase cem anos, ele se transformou numa figura tão cheia de glamour! Primeiro com a vinda de encenadores europeus que fugiam da Segunda Guerra na Europa, como Ziembinski e Zampari, e importaram o padrão de qualidade europeu para os palcos brasileiros (ainda que às custas de uma elitização da platéia, vale ressaltar). Depois, com a primeira safra de diretores brasileiros de amplo reconhecimento, e que estão até hoje em atividade, como Zé Celso e Antunes Filho. E, por fim, com o surgimento de diretores como Gabriel Villela e Gerald Thomas, que propuseram novas experimentações estéticas nos palcos, e por isso foram alçados ao status de verdadeiras estrelas.

Mas hoje sinto que os atores estão mais proponentes e menos (meros) executantes de concepções alheias (ainda que essa execução pudesse ser feita com maestria).

O ator precisa estar muito mais conectado com o sentido que a obra tem para ele, ainda que esse sentido possa variar num amplo de espectro de possibilidades, indo da pura diversão às pretensões artísticas mais elevadas.

E o bom diretor desses novos tempos será justamente aquele que souber aproveitar ao máximo essa força criativa e produtiva dos atores, envolvendo-os da maneira mais completa possível, ao invés de tratá-los meramente como sujeitos que emprestam sua voz e corpo a um personagem, obedecendo ordens e cumprindo marcas (se é que algum dia isso foi verdadeiramente útil).

Publicado por: marcosnauta | 25/10/2009

O ator e a ostra

Para diferentes atores, diferentes processos

Andei pensando esses dias que meu processo de criação se assemelha ao processo de uma ostra ao criar a pérola: é preciso lidar com um certo desconforto gerado internamente quando o processo se inicia, que para a ostra é um grão de areia e para o ator é a semente de um personagem. Expor-se assim, como o ator faz, não é coisa muito simples, e para mim esse movimento interno de gestação envolve uma certa dose de sofrimento e de obsessão que resultam paradoxalmente num grande prazer. Com o tempo, venho aprendendo a confiar no fato de que a pérola, apesar de não vista, está sendo preparada, e que no momento certo de abrir a ostra ela estará lá. Isso não significa se esconder durante os ensaios, ou guardar segredos para surpreender a todos na estreia, pois isso seria desleal. Não, isso significa exercitar a generosidade e a compaixão de ver o ator se debatendo em suas imperfeições durante os ensaios, e intuir a pérola que ele está tentando criar, e facilitar ao máximo esse processo que inevitavelmente será difícil.

Mas reconheço que essa é “uma” maneira, e não “a” maneira. E que talvez eu nem “seja” assim, mas “esteja” assim. Vejo atores com processos bem diferentes, e gostaria  muito de aprender com eles.

Vejo atores metódicos e precisos, estudiosos na busca pela forma exata, pelo tempo perfeito. Atores-cientistas! (Confesso que invejo um pouco esses atores…)

Há outros atores que são pura intuição. Tudo o que fazem soa tão naturalmente bom e cheio de graça que, se eu fosse diretor, teria medo de tocá-los e estragar isso que espontaneamente é tão precioso!

Há também atores que são uma explosão de energia, e tudo o que fazem será brilhante e magnético, desde que não queiramos apagar essa luz ou diminuir essa intensidade.

Enfim, poderia estender ao infinito esse exercício de imaginar as possibilidades de ser ator, e adoraria saber como os outros atores enxergam o seu próprio processo de criação.

Então está aberto o espaço dos comentários para quem quiser depor!

Publicado por: marcosnauta | 02/10/2009

Rainha[(s)]

Rainhas atrizes

No século XVI, duas rainhas disputaram a coroa da Inglaterra: Elizabeth I e Mary Stuart eram primas mas nunca se encontraram na vida real. Tendo como pano de fundo os conflitos religiosos, a católica Mary Stuart é por fim condenada à morte, acusada de tramar o assassinato da anglicana Elizabeth.

No século XVIII, o alemão Friedrich Schiller partiu dessas duas personagens. Num clássico da dramaturgia, expõe não só a luta pelo poder camuflada atrás de questões religiosas, mas também os conflitos entre a vaidade e a consciência dessas duas mulheres poderosas.

No início deste ano, em São Paulo, as atrizes Georgette Fadel e Isabel Teixeira, dirigidas por Cibele Forjaz, decidem encenar um espetáculo que extrai do texto de Schiller tais questões de poder e vaidade, transbordando o embate entre as rainhas para o das duas atrizes que estão montando esse texto. A dramaturgia, feita pelas três durante os ensaios, olha com ironia para esse jogo de vida e morte, sem perder no entanto o impacto do texto original, em trechos extraídos da ótima tradução de Manuel Bandeira.

É uma ótima oportunidade para o público carioca conhecer mais o trabalho de três grandes representantes do teatro paulista: Cibele Forjaz, à frente da sua Cia. Livre, ganhou o prêmio de melhor direção em 2007 por Vem Vai. Georgette Fadel, da Cia. São Jorge, também ganhou o prêmio Shell em 2007 por sua interpretação da Joana de Gota d’água (mesmo papel que deu o prêmio a Bibi Ferreira em 1975). E Isabel Teixeira acaba de ganhar o mesmo prêmio com este espetáculo.

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Publicado por: marcosnauta | 22/09/2009

Till, a saga de um herói torto

O palco na praça

Pode-se dizer que o Grupo Galpão, sediado em Belo Horizonte, é um dos mais importantes do Brasil. Formado há quase 30 anos por um coletivo de atores, o grupo normalmente convida diretores para seus espetáculos. Foi assim com o memorável Romeu e Julieta, dirigido por Gabriel Villela, que estreou em 1992 e rodou o mundo. Apenas uma ou outra vez, algum ator do próprio grupo decide dirigir um espetáculo. E foi este o caso de Till, a saga de um herói torto, conduzido por Julio Maciel.

Após algum tempo assistindo aos trabalhos do Galpão em teatros fechados, é recompensador ver o grupo retornar com tanta propriedade às suas origens no teatro de rua. A rua traz desafios à criação que, se usados a favor, resultam em espetáculos com grande poder de comunicação. E esse é justamente o caso: o texto de Luís Alberto de Abreu, ainda que narrativo demais, oferece uma ótima plataforma para os atores brincarem com personagens grotescos e situações cômicas bem ao estilo da comédia popular.

A peça conta a história de Till, um anti-herói que vem ao mundo por causa de uma aposta entre Deus e o Demônio, numa Alemanha medieval repleta de velhacos e aproveitadores. Para dar conta desses personagens, o elenco fez inclusive um trabalho de preparação baseado no arquétipo do bufão.

Fim de semana passado eles se apresentaram no Parque dos Patins, à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas. Numa noite de céu claro, com a imagem do Redentor por cima do palco e plateia lotada, quem esteve lá presenciou um momento especial. Mas as apresentações que eles realizam ainda essa semana nos Arcos da Lapa e na Quinta da Boa Vista não ficam nada a dever em termos do entorno. E, em breve, mas ainda sem datas e locais confirmados, devem se apresentar em São Paulo. Fique de olho!

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Publicado por: marcosnauta | 21/09/2009

Semana ELT em Alerta!

Cultura de choque, cultura em cheque

Santo André tem vivido momentos de grande desafio que, espero, sirvam para elevar a política cultural da cidade a um novo patamar.

O ator Edgar Castro, professor há onze anos da Escola Livre de Santo André (ELT) e eleito diretor pelos demais professores, foi demitido e substituído pela professora Eliana Gonçalves, contratada no início do ano e nomeada pelo secretário de Cultura de Santo André, numa atitude que fere a tradição pedagógica democrática da escola.

Talvez o secretário de cultura de Santo André, Salvo Melo, esperasse alguma revolta contra essa atitude autoritária, pois sabia que desrespeitava a tradição da escola de eleger seus próprios diretores. Mas certamente não imaginou o que viria: sua atitude na verdade detonou um amplo processo de reivindicação por parte da comunidade da ELT, que culminou no seu fortalecimento. E a discussão já está indo além dessa questão da diretoria da ELT, para que se pense também qual o modelo de política cultural se quer para a cidade, usando para isso inclusive o documento Agenda 21 da Culura, aprovado em 2004 em Barcelona pelo IV Fórum de Autoridades Locais pela Inclusão Social, do primeiro Fórum Universal das Culturas. O tiro parece estar saindo pela culatra.

Essa semana haverá um ciclo de atividades, chamado Semana ELT em Alerta!, com apresentações gratuitas de espetáculos de teatro e música. A programação detalhada pode ser conferida no blog do movimento.

Se puder, vá conhecer de perto a Escola Livre de Santo André, no simpático Teatro Conchita de Moraes.

Semana ELT em Alerta!
21 a 25 de setembro
Praça Rui Barbosa s/ nº, bairro Santa Terezinha, Santo André.
Próximo à estação de trem Prefeito Saladino.

Programação Semana ELT em Alerta!

Publicado por: marcosnauta | 28/08/2009

O Estrangeiro

Um homem sincero

O espetáculo solo de Guilherme Leme, O Estrangeiro, estreou em fevereiro deste ano e está na sua terceira temporada, até fim de setembro, na sala Tônia Carrero do Teatro do Leblon no Rio de Janeiro.

A história gira em torno de Mersault, um homem condenado à morte porque, segundo afirma o próprio Camus no prefácio de seu livro, ele se recusa a mentir. Mas faz isso sem nenhum heroísmo, é a frieza de sua sinceridade que a torna transgressora. Tanto que um dos argumentos que levam à sua condenação é o fato dele não ter chorado no enterro da própria mãe.

A adaptação foi realizada pelo ator e diretor dinamarquês Morten Kirkskov, que escreveu o texto para ele mesmo interpretar. A direção do espetáculo foi dividida da seguinte maneira: Guilherme concebeu a encenação e Vera Holtz, que assina uma direção pela primeira vez, cuidou especificamente do trabalho do ator.

A ambientação é eficiente e sintética: enquanto o ator veste um terno, calma e cuidadosamente, ele narra em primeira pessoa a história de seu personagem. Aos poucos, o ato de se vestir ganha um sentido revelador. A iluminação também cumpre um papel importante no espetáculo, pois a luz do sol é um elemento recorrente na história.

Além das sessões no horário dito “nobre”, há também uma matinê às quintas-feiras às 17 horas.

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Publicado por: marcosnauta | 18/08/2009

Lorna em dose tripla

Lorna Washington nasceu no início dos anos 80. Mas estou falando da personagem, e não de seu criador. Sua maternidade foi a Galeria Alaska em Copacabana, na época um reduto gay carioca. E nasceu a contragosto: de tanto “causar” na pista da boate Sótão, ao som de “Você não soube me amar” do Blitz, foi convidada a se apresentar num show comandado por Cláudia Celeste na boate Katakombe, situada na mesma galeria.

E a partir daí não parou mais: de show em show, Lorna presenciou toda a evolução da noite gay carioca – e, por extensão, do mundo – nesses últimos trinta anos. Pode-se dizer que foi uma precursora do formato stand up comedy, tão em voga hoje em dia. E, da posse do microfone, sempre aproveitou para dar seu recado. Numa época em que o HIV aterrorizava os gays, teve coragem pra falar publicamente do assunto, conclamando seu público a fazer o teste e enfrentando o preconceito e a ignorância. Dessa militância, tornou-se um dos membros fundadores do grupo Pela Vidda, onde atua até hoje, tanto fazendo shows em seus eventos quanto no atendimento às pessoas que passam por lá diariamente à procura de orientação e auxílio.

Além da sua presença rotineira na noite carioca, sua história foi transformada em uma trilogia, encenada no Teatro de Bolsa em Copacabana, com Sobrevivendo às Supostas Perdas em 2006, Lorna no Tom em 2007 e As Lágrimas Cômicas de uma Trans, que ela faz todos os sábados às 21 horas no Teatro de Bolsa, na Praça da Bandeira. Em 1996, numa turnê pelos Estados Unidos, foi clicada para a revista underground Gazelland vestida como Carmem Miranda ao lado de Amanda Lepore.

No show que ela apresenta no Cabaré das Rosas é possível comprovar todo o seu talento. Nos domingos à noite, Lorna comanda um talk show em homenagem a Laura de Vison, onde canta, comenta fatos ocorridos durante a semana e brinca com o público, em meio a apresentações de drag queens e de um stripper masculino.

Depois de umas boas risadas e uma certa dose de lirismo, não há como não sair mais leve!

Lorna Washington

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Publicado por: marcosnauta | 04/08/2009

Talvez

Laptop em cena

Ator contracena com computador em peça que estreia no Rio.

O argumento é simples: um homem promete à sua namorada que não vai sair de casa enquanto ela não voltar de viagem. A espera torna-se então o pretexto para que ele divida com a plateia a angústia de sua dúvida, sugerida pelo título do espetáculo: afinal, será que ela volta mesmo?

A obra foi desenvolvida dentro de um projeto maior, chamado “Autopeças”, onde parte da Cia. dos Atores criou trabalhos independentes uns dos outros, que foram exibidos no SESC Copacabana final do ano passado. Destes, “Talvez” – dirigido pelo ator César Augusto – é um dos que mais rendeu a seus criadores, pois tem percorrido o circuito nacional de festivais de teatro com boa acolhida de público e crítica.

O personagem utiliza seu computador para colocar músicas, escolhidas na hora dentre mais de três mil faixas que foram reunidas através de amigos e em pesquisas na internet. E há também uma projeção em cena, de vídeos pesquisados no youtube. O espetáculo traz para a cena o universo da atual geração, habituada às ferramentas de expressão e comunicação disponíveis hoje em dia.

E atenção: no mesmo teatro, aos fins de semana, estará em cartaz o espetáculo In On It, dirigido por Enrique Diaz, que também é da Cia. dos Atores, e esteve no Oi Futuro em sessões bastante concorridas. Quem perdeu a primeira temporada, não deixe de ir!

Álamo Facó em cena com Talvez

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